O ano de 1385 marca nesta colecção a entrada numa Idade Média que foi sempre um particular desafio historiográfico. Desde logo porque é difícil na nossa consciência colectiva conseguir identificar a Idade Média por entre a grande massa de «medievalismos», de imagens mais ou menos fantasiosas, que sobre esta época a posteridade foi agregando. A Idade Média é — talvez surpreendentemente para alguns — um terreno de enorme experimentalismo político, social e religioso. Em Portugal, por exemplo, 1385 reveste‑se de um carácter especial. Ano de uma crise dinástica que poderia ter resultado na absorção do reino ou, como sucedeu, numa transição bem‑sucedida (do nosso ponto de vista) para uma segunda dinastia portuguesa, 1385 foi encarado como desenlace de uma «revolução» (1383‑1385) na qual o povo, e em particular o povo urbano de Lisboa, emergiu como actor histórico, sobretudo pela pena genial de Fernão Lopes. Todavia, de tanto ser carregado com sentidos políticos e patrióticos ao longo dos séculos, perde‑se de 1385 a noção de que a sociedade portuguesa de então era radicalmente diversa da que viria a formar‑se depois, já para não falar da moderna.